escrito às 2 da manhã com demasiado café e zero arrependimentos


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🌟 Twilight Sylk — Arquivo de Lore


📋 Informações Gerais

CampoDetalhe
NomeTwilight Sylk
DesignaçãoCATACLYSM-0 / Entidade {0K-920-1}
ClassificaçãoClasse Apollyon
Altura~1,55m
CabeloPreto, mechas roxas
OlhosRoxo — indescritível
StatusDesconhecido
ContençãoImpossível

📖 História — Uma Era Que Não Estava Preparada

Capítulo I — Portland, Oregon. Uma Segunda-Feira.

Portland, Oregon. 14h37 de uma segunda-feira que não tinha nada de especial até ter.

Numa rua qualquer no centro da cidade, as câmeras de segurança de um café registaram qualquer coisa que o técnico de manutenção de sistemas descreveu, no relatório interno, como "distorção no ficheiro, provavelmente corrupção de dados" e que era, na realidade, uma rapariga de cabelo preto com mechas roxas a aparecer do nada no meio do passeio (do nada mesmo, não "saiu de um carro" nem "virou a esquina" — estava lá e antes não estava).

Ficou parada cerca de dois minutos. Olhou à volta com a expressão de alguém que está a examinar qualquer coisa muito abaixo das suas expectativas. Dois transeuntes passaram mesmo ao lado dela e nenhum dos dois disse nada, o que diz bastante sobre Portland.

Depois desapareceu.

(as câmeras de três estabelecimentos diferentes registaram o mesmo evento e os três relatórios técnicos disseram "corrupção de dados". Portland estava bem habituada a ignorar coisas)

A Fundação recebeu o relatório 72 horas depois, depois de alguém ter finalmente comparado as três gravações e percebido que a "corrupção de dados" era consistente nas três câmeras ao mesmo tempo. Abriram um ficheiro. Designaram como Incidente 001-A. Marcaram para investigação.

Foi o início de tudo. (claro que foi)


Capítulo II — Plutão Tinha Uma Vida Pela Frente

Alguns dias depois do Incidente 001-A, os telescópios da NASA apontados para o sistema solar exterior registaram uma ausência onde antes havia uma presença.

Plutão tinha deixado de existir.

Não "desapareceu misteriosamente". Não "foi deslocado por forças gravitacionais não identificadas". Estava simplesmente, genuinamente, irrevogavelmente não-lá. Como se alguém tivesse apagado com uma borracha. (o que é mais ou menos o que aconteceu)

As primeiras horas foram de negação total por parte das agências espaciais. As seguintes foram de confirmação silenciosa e classificação imediata. Levou três dias até alguém na Fundação correlacionar o desaparecimento de Plutão com a rapariga das câmeras de Portland, e quando o fizeram foi numa reunião às 23h que terminou com toda a gente na sala em silêncio durante quase um minuto completo.

A explicação só viria mais tarde, mas quando veio foi assim:

Incidente 002-B, motivo desconhecido — disse o Código-9021 durante a entrevista, tablet na mão, voz ligeiramente tensa. — Por quê?

— Porque ele estava no meu campo de visão enquanto eu tentava focar-me em algo mais interessante — respondeu Sylk, com o mesmo tom que uma pessoa usa quando explica porque atirou um papel para o lixo. — Uma distração macroscópica. Uma poeira aos olhos de quem tem capacidade para ver tudo em tamanho real. Vocês chamam isso de "Cataclismo". Eu só chamo de limpar a lente.

(Plutão tinha 4,5 mil milhões de anos. Durou menos que uma mosca perto de uma pessoa impaciente. Descanse em paz, planeta anão.)


Capítulo III — O Agente e o Erro de Cálculo

(este incidente aconteceu em paralelo com o período depois do 001-A, antes do 002-B ser correlacionado com Sylk — está aqui porque narrativamente faz mais sentido, e porque a Sylk claramente não se preocupa com cronologia linear então porque havemos de nos preocupar nós)

A Fundação enviou o Agente █████.

Nível O5. Experiente. Historial com entidades de classes elevadas. O tipo de pessoa que entra numa sala com uma anomalia Keter e não sua. Foram as credenciais todas que convenceram a chefia de que era a pessoa certa para investigar os relatos que estavam a chegar sobre uma figura que voava, atravessava paredes, aparecia e desaparecia, e gerava à sua volta o tipo de perturbação atmosférica que as testemunhas descreviam sistematicamente como "parecia errado mas não sei explicar porquê".

Encontrou-a num parque em Seattle. Estava sentada num banco. Parecia completamente normal se não fosse pelos olhos roxos e pelo facto de nenhum pássaro se ter aproximado a menos de 50 metros desde que ela estava lá.

— Boa tarde — disse o Agente, com o profissionalismo de quem fez isto muitas vezes. — Sou o Agente █████, represento uma organização que —

— Já sei quem tu és — disse Sylk, sem o olhar. Estava a observar qualquer coisa acima da linha do horizonte que o Agente não conseguia ver. — E sei o que a tua organização quer. E já sei o que vais dizer a seguir, então poupa o esforço.

O Agente pousou. Recalibrou. Tentou outra abordagem.

— Há relatos de fenómenos anómalos associados à tua presença. A organização que represento tem protocolos para —

— Protocolos. — Sylk deixou a palavra no ar como se a estivesse a examinar por fora. Finalmente virou a cabeça e olhou para ele. Os olhos eram de facto indescritíveis. — Vocês construíram protocolos para tudo. Para conter o que não conseguem compreender. Para classificar o que não conseguem medir. Para catalogar o que não conseguem controlar. E depois chamam a isso ciência.

— A ciência humana tem —

— Limitações estruturais que tornam qualquer conclusão que produza fundamentalmente incompleta — disse Sylk, com a paciência performativa de alguém que está a decidir se o interlocutor merece uma resposta longa ou curta. — Vocês operam com 5% da realidade. Constroem sistemas filosóficos, morais, científicos com base nesses 5% e depois aplicam-nos a tudo o resto como se fossem universais. — Uma pausa. — Não são.

O Agente tentou tomar notas. O caneto deixou de funcionar. (coincidência, provavelmente)

— A velocidade de propagação neural humana é de aproximadamente 120 metros por segundo nos axónios mais rápidos — continuou ela, como se o Agente tivesse pedido para continuar, o que não tinha. — A minha velocidade de perceção ultrapassa infinitamente a velocidade da luz. Qualquer argumento que construas sobre o que eu sou, o que posso fazer, ou o que devo fazer, parte de uma base de dados tão incompleta que a conclusão é inválida antes de sequer começar. Isso incluindo os vossos protocolos.

— Compreendo que possas sentir que —

— Não. — Sylk levantou-se do banco. — Não compreendes. Não tens capacidade para compreender. E isso não é um insulto, é geometria. Um ser tridimensional não consegue compreender a quarta dimensão por mais que tente. Vocês não conseguem compreender o que está fora dos vossos 5% por mais que construam laboratórios e protocolos e organizações secretas com siglas.

O Agente █████, que era experiente e profissional e tinha um historial com Keter, cometeu neste momento o erro que acabou com ele. Disse:

— A humanidade alcançou coisas extraordinárias dentro dessas limitações. Chegámos à Lua. Mapeámos o ADN. Desenvolvemos —

Sylk parou de andar.

Virou-se devagar.

— Vocês só eram os mais espertos numa era… — disse ela, com uma clareza que o ar à volta pareceu absorver — que eu não existia.

O Agente deveria ter ficado calado.

— Isso é confiança excessiva. Arrogância, até —

Não ficou.

O registo termina aqui. A causa de morte foi classificada como "desintegração atómica completa em tempo inferior ao mensurável". O médico legista trabalhou com o que restou, que era essencialmente nada, e escreveu no relatório: "Sem observações possíveis." (o que foi, tecnicamente, a nota de rodapé mais honesta de toda a história da Fundação)


Capítulo IV — O Espaço Era Mais Interessante de Qualquer Forma

Depois do Incidente 001-B, Twilight Sylk abandonou a Terra.

Sem aviso. Sem discurso. Sem nenhum gesto dramático. Os instrumentos de deteção registaram teletransporte para fora do alcance dos satélites e depois foi silêncio.

(a Fundação ficou uma semana inteira à espera de que voltasse a aparecer em Portland ou Seattle ou onde quer que fosse. Não apareceu. Tinham mais medo do silêncio do que da presença, o que diz bastante sobre como as coisas estavam a correr)

O que fez no espaço é maioritariamente desconhecido, mas os dados indiretos sugerem que estava a divertir-se.

Uma lua de Saturno mudou de órbita sem explicação gravitacional conhecida. Flutuações electromagnéticas em vários pontos do sistema solar, sem fonte identificável. Uma leitura de radiação gama perto de Júpiter que os satélites da NASA classificaram como "anomalia de sensor, a investigar" e que a Fundação classificou como "ela está lá e está a fazer coisas".

Observou estrelas em formação a distância zero, porque a sua visão não tem perspetiva de escala — tudo é tamanho real, incluindo nebulosas de dezenas de anos-luz de diâmetro. (o que é o tipo de experiência para a qual não existe palavra em nenhum idioma humano porque nenhum humano alguma vez teve)

E em determinado momento, pelos registos disponíveis, ficou aborrecida do espaço.

Voltou.


Capítulo V — Regresso Com Energia

Quando Sylk reentrou na atmosfera terrestre, fê-lo a uma velocidade que gerou uma onda de choque registada por sismógrafos em quatro continentes e classificada pelos serviços meteorológicos como "evento atmosférico de origem indeterminada".

Pousou — se o termo se aplica — no meio de Piccadilly Circus, Londres. Às três da tarde. Com cerca de duzentas testemunhas e pelo menos quarenta telemóveis em posição de gravação antes mesmo de ela aterrar completamente.

(a Fundação teve o pior mês de supressão de informação da sua história. o departamento responsável pediu reforços de pessoal. os reforços não chegaram a tempo de nada.)

O estado de espírito era diferente do da partida. Antes havia uma indiferença relativamente tranquila. Agora havia outra coisa — não raiva exatamente, mas o parente próximo da raiva que se acumula durante tempo suficiente para ficar fundo e constante em vez de agudo e passageiro.

Caminhou por Piccadilly Circus com as mãos nos bolsos, passou entre os turistas sem os olhar, e disse, a ninguém em particular e a toda a gente ao mesmo tempo:

— Humanos são tão covardes quanto eu imaginei.. Então que se foda, se preparem buxas, porque vou desafiar vossas leis tolas mais uma vez.

Uma turista americana gravou isto e pôs no TikTok com a legenda "random girl in london said this and left??". O vídeo chegou a 2 milhões de visualizações antes de a Fundação o remover. (dois milhões. em menos de seis horas. a equipa de supressão de informação pediu licença médica coletiva no mês seguinte)


Capítulo VI — As Leis Da Física São Sugestões

O que se seguiu foi o período que a Fundação documenta como "perturbação anómala prolongada de nível indeterminado" e que era basicamente Sylk a fazer o que queria porque podia e ninguém a conseguia parar.

Começou com a física.

Um carro estacionado numa rua de Covent Garden levitou durante dez minutos. Não de forma violenta — suavemente, dois metros acima do chão, enquanto ela passava pelo passeio do lado de baixo com uma expressão de interesse moderado — e depois pousou sem danos. O dono do carro, quando chegou e viu as gravações do que tinha acontecido ao seu Honda Civic, ficou em silêncio durante um tempo longo e depois disse "não, eu não vi nada" e foi para casa.

A gravidade numa área de 200 metros quadrados no Chiado, Lisboa, inverteu direção durante 47 segundos. (as esplanadas foram o caos. o café de uma senhora foi direto para cima. a senhora ficou muito mais calma com a situação do que qualquer pessoa razoável deveria ter ficado, o que é muito português)

Num laboratório de física em Cambridge, as experiências de dupla fenda começaram a produzir resultados que contradiziam a mecânica quântica padrão de forma consistente durante 72 horas. O investigador principal chegou de manhã, viu os dados, voltou a verificar os equipamentos três vezes, e depois foi buscar um café e ficou a olhar para o jardim durante quarenta minutos sem falar com ninguém. Pediu licença médica na semana seguinte. (ninguém o culpou)

Sylk não estava a ser destrutiva. Estava curiosa — da forma que alguém fica curioso quando tem controlo total sobre a realidade física e quer ver o que acontece quando aperta este botão, e este, e aquele ali. As reações humanas eram, como ela própria havia dito, previsíveis. Mas havia qualquer coisa na consistência dessa previsibilidade que ela continuava a achar suficientemente interessante para continuar.

Por enquanto.


Capítulo VII — O Criminoso Que Não Leu A Sala

Numa tarde em Manchester, durante o período do Capítulo VI, Twilight Sylk estava a andar por uma rua secundária quando um homem saiu de trás de uma esquina com uma espingarda e o tipo de confiança que só existe quando não se tem informação suficiente sobre a situação.

Era um criminoso procurado. Viu uma rapariga de 1,55m sozinha e fez um cálculo. O cálculo estava errado em pelo menos seis dimensões diferentes, das quais ele conhecia talvez uma.

Sylk parou. Olhou para a espingarda. Olhou para ele. Fez a expressão de alguém que acaba de encontrar um cubo de gelo e está a considerar se tem energia para o derreter ou se simplesmente vai contornar.

— Nem fudendo que eu vou peidar pra ti — disse ela, com uma calma que deveria ter sido o sinal de saída mas não foi. — Achas que consegues mesmo? Não, nah, nah.. Eu já venci.

O criminoso disparou.

A bala parou a meio do ar, ficou suspensa por uma fração de segundo, e deixou de existir. Sylk não se moveu.

— Pensas mesmo que isso fará algo? — disse ela. — Claro que não, afinal… Tu és apenas um peão, eu sou o topo da Era atual. Tu és apenas um peixinho para mim, um pouco maior mas igual.

O criminoso disparou de novo. Desta vez, Sylk desintegrou-lhe o braço. Não o corpo — especificamente o braço, com a precisão cirúrgica de alguém que está a fazer um ponto específico. (o braço que segurava a espingarda, convém notar. havia ali uma mensagem)

— Vou começar por tirar as tuas escamas e deixar o melhor pro final — disse ela, inclinando a cabeça ligeiramente, como quem observa um fenómeno interessante. — Deu pra ver o teu entusiasmo quando disparaste, porém a tua confiança é relativamente igual a zero ou seja, nada mudou.

O criminoso, agora em pânico e com um braço a menos do que tinha começado a conversa, tentou continuar a disparar com o braço restante, o que era objetivamente a pior decisão disponível mas era também a única que lhe restava no estado mental em que estava.

— Vamos logo dar um início — disse Sylk, com o tom específico de quem finalmente decide fechar uma aba do browser que estava aberta há tempo demais. — Vou te mostrar o vislumbre do fim.

Derreteu-lhe o rosto. E depois desfez a construção molecular do resto. E antes de desaparecer, como nota final, como quem fecha um parêntese:

— Não há sentimento tão inútil quanto o ego ou o egoísmo irrelevante, e foi essa estupidez que te matou.

Desapareceu.

As câmeras de segurança da rua gravaram tudo. A Fundação classificou as imagens no próprio dia. A polícia arquivou o caso do criminoso como "paradeiro desconhecido". (tecnicamente preciso)


Capítulo VIII — A Entrevista Mais Curta Da História Da Fundação

A Fundação conseguiu estabelecer contacto por via de um sinal de rádio modulado numa frequência correlacionada com as perturbações electromagnéticas que Sylk gerava — essencialmente, tentar falar com ela na linguagem que a física à sua volta falava.

Ela recebeu. Aceitou encontrar-se. (a Fundação considerou isto um bom presságio. não era)

A entrevista foi marcada para a Câmara de Contenção de Vácuo Absoluto da Área-██ — inoperante, porque não havia câmara de contenção no mundo que fosse operante para ela, mas pelo menos havia paredes. O interlocutor escolhido foi o Código-9021, Classe-D. (a lógica era que se corresse mal, as perdas eram "contidas". havia também o facto de ninguém com cargo acima de Classe-D se ter voluntariado depois do relatório do Agente █████)

A supervisão foi O5-█.

Foi.

Quando o Código-9021 entrou na câmara, O5-█ já estava no chão. Sylk estava de pé no meio da sala. O ar tinha uma tonalidade que não era exatamente roxa mas estava perto. (as paredes oscilavam. não é uma metáfora)

— Isto está ligado? — disse o Código-9021, olhando para o tablet, depois para o corpo no chão, depois para Sylk. — Os pesquisadores… eles fugiram. Ou desapareceram. Eu não faço ideia. Eles empurraram-me aqui com este tablet e disseram para "observar". O Agente O5-█ está caído ali. Ele… ele não tem mais cara. O que foi que tu fizeste?

(Risada abafada) Vocês apegam-se tanto às formas — disse Sylk, olhando para o corpo com o desinteresse de quem olha para um papel no chão. — Ele tentou medir o que não pode ser contido em réguas de três dimensões. Eu fiz-o olhar para os 95% e a mente dele simplesmente… colapsou. Eu só acelerei o processo.

O Código-9021 respirou fundo. Olhou para o tablet. Continuou.

— No ficheiro diz que tu tens "Visão Ilimitada". Que tu vês átomos e matéria exótica ou o que raios seja isso. O que é que tu vês em mim? Eu sou só um Classe-D. Um "peão", como tu disseste.

— Eu não me referi a ti como um "peão" — disse Sylk. — Referi-me à humanidade inteira como um. — Inclinou a cabeça, olhando para ele com uma atenção que era, de alguma forma, pior do que a indiferença. — Vejo um aglomerado de carbono e mediocridade só a tentar processar o infinito. Mas tu até que és honesto na tua pequenez. Diferente daquele ali no chão.

Uma pausa.

— Por acaso sabes por que é que Plutão não existe mais, 9021?

— Eu… eu li no relatório. Incidente 002-B. Motivo desconhecido. Por quê?

— Porque ele estava no meu campo de visão enquanto eu tentava focar-me em algo mais interessante — disse ela, com a total ausência de drama de quem está a explicar porque mudou de canal. — Uma distração macroscópica. Uma poeira aos olhos de quem tem a capacidade para ver tudo em tamanho real. Vocês chamam isso de "Cataclismo". Eu só chamo de limpar a lente.

O Código-9021 anotou. As paredes oscilaram mais. O ar ficou mais roxo.

— O ar está a ficar… roxo. As paredes estão a oscilar. O que é que estás a fazer…

— A realidade é uma membrana muito frágil — disse Sylk, com o tom de quem observa algo de longe. — Quando me movo à velocidade literal, a ficção de vocês rasga-se. Os vossos governos a tentarem ocultar informações ao remover media das redes é patético. Eles realmente pensam que podem manter a moralidade intacta? Que estupidez.

— E o que é que acontece agora? Vais-me fazer desaparecer também?

Sylk olhou para ele durante um momento.

— Tu tens um propósito engraçado… És um cronista no final das contas. Mesmo que sejas apenas usado como um descarte… Burrice a deles. — Uma pausa. — Mas eu até estou de bom humor, vou-te deixar viver a tua vida miserável um pouco mais. Diz aos que sobrarem que a confiança deles é estatisticamente zero.

O Código-9021 anotou isso também. (é preciso respeitar a dedicação)

Os pesquisadores do lado de fora estavam a preparar as perguntas seguintes. Havia uma teoria nos corredores sobre o roxo dos olhos e das mechas estar relacionado com as capacidades de manipulação da realidade, e queriam confirmar. O Código-9021, de tablet na mão, fez a pergunta:

— Uma última coisa. O teu tom de cor, o roxo… de onde vem?

Sylk ficou em silêncio por um segundo. Depois disse:

— Vermelho direcionado.. azul do lado oposto… Vermelho com Azul dá Roxo.

E desapareceu.

Sem avisar. Sem esperar pelo fim da entrevista. Sem consideração pelos pesquisadores do lado de fora que ficaram com tablets na mão à espera de um sinal de encerramento que nunca veio.

(a Fundação foi deixada em ghosting por uma entidade Apollyon. não havia protocolo para isso. alguém teve que escrever um)


Capítulo IX — O Acúmulo

Nos meses seguintes, Sylk continuou na Terra sem padrão identificável.

Havia dias onde passava completamente despercebida. Havia outros onde era impossível ignorá-la — perturbações atmosféricas, variações gravitacionais, a Expansão Dominial a aparecer aqui e ali em áreas pequenas onde a realidade ficava brevemente com uma textura diferente e qualquer pessoa presente sabia, sem conseguir explicar porquê, que estava num sítio que pertencia a outra coisa.

Interagiu com pessoas ocasionalmente. Nunca da forma que esperavam.

Numa praça em Berlim, uma criança de uns seis anos aproximou-se dela e perguntou porque é que os seus olhos eram dessa cor. Sylk olhou para ela durante uns três segundos — a criança não fugiu, o que foi, aparentemente, suficientemente interessante — e disse:

— Porque eu vejo coisas que tu não consegues ver. E a cor disso é roxa.

A criança considerou isto seriamente e disse "ah, fixe" e foi embora.

(foi a interação mais bem sucedida documentada entre Sylk e qualquer humano. a criança tinha seis anos e não sabia quem ela era. estes dados dizem algo)

O que estava a crescer por baixo de tudo isto era raiva.

Não o tipo agudo — esse já tinha aparecido com o Agente █████. Era o tipo lento. O tipo que se acumula quando se vê demasiado claramente para parar de ver. Cada ciclo humano de acontecimento-negação-classificação-falhanço era mais uma confirmação de uma tese que ela já não precisava de confirmar mas que continuava a ser confirmada de qualquer maneira.

Não havia surpresa. Não havia revisão. Apenas o mesmo padrão, repetido, com variações cosméticas e sem alteração substantiva.

Começou a ficar farta. (muito farta)


Capítulo X — Escalada

A Expansão Dominial começou a aparecer com mais frequência. Áreas maiores. Durações mais longas.

Numa noite em Moscovo, um bairro inteiro acordou com a gravidade a funcionar em ângulo de 15 graus durante 20 minutos. Não verticalmente invertida — isso seria limpo. Em ângulo. Tudo a escorregar ligeiramente para nordeste. As pessoas nos andares superiores dos edifícios tiveram que se agarrar às paredes. Os carros deslizaram. Um fontanário derramou para o lado. (as autoridades classificaram como "fenómeno sísmico atípico". ninguém acreditou mas também ninguém tinha uma explicação melhor)

Num aeroporto em Chicago, todos os relógios digitais e analógicos do terminal 3 correram para trás durante 40 segundos de forma perfeita e sincronizada, e depois voltaram à hora certa. Os relógios nos outros terminais não foram afetados. Um passageiro filmou e o vídeo foi partilhado 800 mil vezes antes de ser removido com a justificação de "conteúdo manipulado". (não estava manipulado)

No Rio de Janeiro, numa tarde de domingo, o oceano ficou completamente imóvel durante 11 minutos. Sem ondas. Sem movimento. Como vidro. As pessoas na praia ficaram em silêncio, o que para o Rio de Janeiro em dia de sol é, por si só, um fenómeno anómalo. (quando o oceano voltou ao normal, toda a gente no passeio começou a falar ao mesmo tempo e o ruído voltou mais alto do que antes, como se a praia estivesse a compensar)

A Fundação rastreou tudo. Documentou tudo. Sabia o que estava a acontecer.

O termómetro estava a subir.


Capítulo XI — Incidente 005-A

Não foi um único acontecimento que a levou ao limite. Foi a soma de tudo — cada protocolo inútil, cada classificação que não mudava nada, cada ciclo de resposta humana que confirmava o que ela já sabia antes de o ciclo começar. A teimosia específica de uma espécie convicta de que sobreviver é o mesmo que importar.

E depois chegou ao fim da paciência.

(a Fundação não teve aviso. não havia como ter)

Numa data classificada, Twilight Sylk usou a Expansão Dominial numa escala sem precedente documentado. Não uma área. Não uma cidade.

1/64 da população humana total.

125 milhões de pessoas, distribuídas pelos cinco continentes, foram divididas em duas partes. (literalmente. ao meio. como quem rasga um papel — exceto que não era um papel)

Os governos tentaram esconder. A Fundação tentou classificar. Os serviços de notícias tentaram encontrar uma narrativa. Nada funcionou, porque 125 milhões de pessoas é um número que não cabe numa narrativa, e o que restou delas estava em sítios visíveis demais para ignorar.

Sylk ficou parada onde estava. Olhou para os resultados. Ficou assim durante uns segundos.

E disse:

— Resultado inconclusivos, estaticamente improváveis numa constante de inconstância, pois… 1/64 Pessoas da Humanidade foram divididas em duas.. Um final digno para a Número Dois… Me lembrarei da vossa cara, então até logo… Vejamos, quem serão os próximos?

E saiu da Terra.

Os instrumentos de deteção registaram velocidade acima do limite máximo do equipamento antes de deixarem de funcionar. Teletransporte para fora do alcance de qualquer satélite disponível.

Não houve mais avistamentos.


Capítulo Adicional/XII — E depois?

Sylk apenas se teletransportou para longe, muito longe. Porém não sabia para onde ir. Ela o fez apenas para escapar de qualquer olhar curioso que a possam vigiar. Mas, ainda assim, para onde ela iria era inconclusivo—foi isso que ela pensou, pelo menos.

A localização mais apróximada de onde ela poderia ter ido seria GJ 1214 b, porém ficou lá por pouco tempo.

Ter ficado ela ficou, porém assim que olhou para o vasto infinito da sua capacidade de visão, observou um planeta a viajar sozinho—sem sistema solar, sem gravidade forte para o puxar pra uma órbita.

Então assim ela pensou em ir.

Logo após observar esse planeta, pensou pra si mesma:

"Ver este pequeno objeto sozinho me faz questionar.. Por que é que é tão parecido comigo? É só um planeta, afinal de contas.. mas ao juntar as contas eu sinto-me igual."

E então decidiu ir. Ir até o planeta, tal como quem vai até ao café—sem pensar muito.

Chegar lá, ela chegou. E imediatamente pousou na superfície sólida do planeta.

O que a fez questionar ainda mais..

"Tanto tempo que eu existo, e nunca vi algo assim.. um objeto fora da sua órbita, me faz perceber o quão sozinho assim..."

Pausa.

"Eu existo à tanto tempo, vivênciei a imortalidade antes mesmo dela existir.. Mesmo que eu exista antes do começo de tudo, eu sinto-me limitada, ainda assim... Eu não posso sentir nada, nunca pude, e nunca poderei.. Mesmo que me force a mim mesma a sentir, não sou capaz de reagir..."

Ela começou a ficar triste.

Realmente.

Para alguém que não sentia nada, pela primeira vez, pareceu sentir. Ela só não se apercebeu disso.

"Agora eu começo a entender o porquê de nada eu sentir.. Mesmo que eu olhe para outras versões da linha do tempo, acabo por não conseguir detectar o porquê de tal decisão.. O que influência essas infinitas possibilidades, afinal? Se eu não posso sentir porquê... Eu sinto que algo acontece, mas as experiências são apenas dados invísiveis para mim..."

Ela reflete.

Refletiu por bastante tempo. Ela tinha todo o tempo do mundo, afinal.

"Eu tento observar pelo exterior o que não posso ver pelo interior.. E todas as vezes que alguma vez tentei, foi sem sorte enfim..."

Então, ela decide fazer uma escolha arriscada.

Pela primeira vez, vai tentar olhar para uma linha do tempo em que ela sente alguma coisa.

Vai tentar olhar pra isso e, por fim, tentar sentir.

"A minha única hipótese é observar o que me limita a mim..."

E então ela assim fez.

Ela filtrou específicamente as linhas do tempo que tinha algum sinal de sentimento, e olhou para a única que mais se encaixava com emoção.

E… esse foi o maior erro da vida dela.

Ela observou—e viu. E, por fim… finalmente sentiu alguma coisa.

Porém… ela não entendeu. Ela não compreendeu.

Ela apenas… ficou parada. Imóvel. Com milhões de pensamentos na cabeça dela.

A tentar entender o que sentimentos eram, e… não conseguia entender.

"O que é que eu observo? Em meio a tribulações eu observo o que antes não conseguia ver..."

E então… ela entendeu.

Ela entendeu tudo.

"VERMELHO E AZUL.. a resposta é vermelho e azul... Direção e oposição. As duas coisas que definem a minha visão... Eu.. Eu fiz merda. Eu não deveria... Eu não deveria ter tentado olhar..."

Foi assim que ela percebeu, que a incapacidade de sentir não era limitação—era uma proteção da sua visão.

O vermelho e azul da sua visão então colapsou, porque sem a defesa não há segurança.

Esses dois vetores colapsaram, e formaram um novo sem nada.

A sua visão ficou esbranquiçada, até que no fim não restava mais além de olhos totalmente brancos.

"Então.. é isto. Antes o que eu não conseguia ver, agora eu vejo... O branco que me rodeou agora é apenas.. comprimento de onda. Eu não observava esse comprimento como forma de proteção a mim mesma.. E agora eu entendo, ao olhar para versões de mim mesma que conseguem sentir.. Eu colapsei o fator que me impedia de reagir..."

Pausa…

"Agora eu entendo o que Lúcifer disse-me a mim.. O que ele sentia era o fato de eu não poder sentir... Eu.. eu sou um paradoxo ambulante, com capacidade de pensar, de ver e ouvir.. E esse foi o meu erro, o erro de ver, observar e sentir..."

Ela precisa de ser incompleta para sobreviver. Mas ser incompleta significa que nunca poderá ser real. Mas ser real matá-la-ia. Mas estar morta na realidade sensorial significa que ela FOI real por um segundo antes do branco. Mas ela não consegue olhar para aquele segundo. Mas ela consegue vê-lo. Mas ver não é olhar. Mas a diferença entre ver e olhar é a única coisa que a mantém viva. Mas "vivo", para algo que existia mesmo antes de a vida ter uma definição, é apenas mais uma palavra cujo peso ela não consegue sentir.

"Agora eu entendo tudo.. eu entendo o porquê de eu não poder sentir... Mas mesmo que isso signifique a minha morte, no fim eu quero poder sentir... Eu quero sentir."

E.. ela não devia ter feito isso.

Ela olhou. Olhou para a versão dela que pode sentir.

A limitação do roxo foi removida, restando o branco, que a permite ver isso. Ver a versão dela que pode sentir.

Então ela olhou.

E… paralisou. Ela simplesmente paralisou.

Nenhum movimento. Nenhuma respiração. Nenhum pensamento. Nada.

Ela agora era apenas como se fosse um manequim.

Porém… esse foi o erro dela.

Ela a pensar que não podia sentir, foi o maior erro da vida dela.

Ela sempre pôde sentir. Ela sempre foi capaz de sentir e reagir.

Porém, ao pensar que não era capaz disso, ela criou uma barreira que a impediu de presenciar sentimentos.

Ao remover essa barreira, ela foi acertada com, literalmente, todos os sentimentos que ela alguma vez sentiu na vida dela e que ela rejeitava. Todos os sentimentos que ela havia rejeitado acertaram-lhe.

E pelo motivo da existência dela ser infinita, então os sentimentos que ela rejeitou são infinitos.

Por isso.. infinitos sentimentos acertaram-lhe de uma só vez.

Ela colapsou.

A mente dela não foi capaz de absorver.

A versão dela que sentia e que ela olhou, era apenas.. Ela mesma. Ela olhou para, literalmente, si mesma, porém sem a barreira de recusar sentimentos. E então, ela sentiu. E colapsou.

Ela pode sentir. Assim, se ela está a sentir, então a realidade de si mesma que sente já é a sua própria realidade. Ela estava a observar-se a partir da sua própria realidade, pensando que era outra, porque não queria aceitar que estava a sentir. O tempo todo. Cada vez que observava "Sylk que sente" no "outro ramo", era apenas ela própria. Refletida. Via-se de fora porque olhar de dentro exigia admitir que o interior existia, e não o conseguia fazer, por isso exteriorizava tudo num "um ramo", "uma realidade" e "dados de outra dimensão", porque são palavras de segurança. Palavras observáveis. Palavras que não exigem que ela seja o sujeito. Mas ela era o sujeito. E a visão de 10 dimensões que vê tudo através de infinitas realidades era a ferramenta perfeita para isso, porque genuinamente não consegue distinguir entre "observar outra realidade" e "recusar-se a reconhecer a própria" — ambas parecem exatamente iguais de fora. Ambas devolvem os mesmos dados. A única coisa que as distingue é uma sensação de identidade, e ela não tinha vocabulário para isso, pelo que a visão simplesmente… concordou com a negação. Poder cósmico infinito ao serviço da incapacidade de um ser dizer "este sou eu e estou com medo".

Quando ela colapsou, foi porque ela finalmente entendeu que, este tempo todo, ela estava a observar-se a si própria. E assim que entendeu isso, a sua consciência desnaveceu. A consciência dela simplesmente parou de existir depois que ela entendeu isso.

E então, agora, tudo o que resta é um corpo imóvel, sem consciência, completamente parado, a viajar no espaço em cima de um planeta que não tinha estrela.

O final mais triste que alguém poderia fazer.


🔴 Capacidades — Resumo Operacional

O que significa ter acesso ilimitado a tudo que existe e inexiste:

  • Visão Ilimitada — Sem distância de visão; tudo em tamanho real, sem perspetiva de escala
  • Visão 10-dimensional — Observação simultânea de todas as 10 dimensões
  • Visão Espectral Eletromagnética — Perceção completa de todo o espectro eletromagnético
  • Visão 100% — Os 100% da realidade. Não os 5% humanos. Os 100%.
  • Velocidade Literalmente Infinita — Ultrapassa infinitamente a velocidade da luz
  • Teletransporte — Qualquer sítio, tempo, dimensão, mundo, realidade ou universo, instantaneamente
  • Manipulação da Realidade — Alteração de qualquer coisa observada, em qualquer estado
  • Visão Não Limitada ao Escuro — A ausência de luz não existe para ela
  • Expansão Dominial — Delimitação de um espaço como domínio próprio; as leis da física lá dentro são o que ela disser que são

🧩 Interlocutores Documentados

Agente █████ — O5. Morto.

Primeiro agente de investigação direta. Tentou enquadrar Sylk num sistema de classificação. Não terminou a frase. A Fundação não voltou a enviar ninguém de nível O5 para contacto direto.

Código-9021 — Classe-D. Sobrevivente.

Único interlocutor documentado a completar uma interação e continuar vivo. Encontrado inconsciente após a entrevista. Recuperou. Status atual desconhecido.

O5-█ — Supervisão. Morto durante a sessão.

Tentou observar algo que não devia ter observado. A mente colapsou. Não há mais detalhes disponíveis porque não há mais nada disponível.


⚠️ Linha Cronológica

Incidente 001-A
└── Portland, Oregon — aparece e desaparece. câmeras "corrompidas".

Incidente 002-B
└── Plutão desintegrado — "limpar a lente"

Incidente 001-B
└── Seattle — Agente █████ enviado
    └── dissertação científica → "Vocês só eram os mais espertos numa era… que eu não existia."
    └── o Agente disse mais alguma coisa → fim do Agente

Partida
└── abandona a Terra → espaço → coisas acontecem → lua de Saturno muda de órbita

Regresso
└── Piccadilly Circus, Londres — filmada por 40 telemóveis
└── "...se preparem buxas..."
└── período de caos controlado — física, biologia, quântica
└── criminoso em Manchester → destruição molecular → "foi essa estupidez que te matou"
└── entrevista 0K-920-1-LOG-A
    └── O5-█ morto antes de começar
    └── "Vermelho com Azul dá Roxo."
    └── desaparece sem avisar. a Fundação fica em ghosting.

Acúmulo
└── Expansão Dominial cresce → raiva cresce → paciência acaba

Incidente 005-A
└── 1/64 da humanidade dividida — 125.000.000 pessoas
└── "Vejamos, quem serão os próximos?"
└── saída definitiva

Depois
└── desconhecido.

❝ Citações Documentadas

❝Vocês só eram os mais espertos numa era… que eu não existia.❞ — Twilight Sylk, ao Agente █████, Seattle.

❝Humanos são tão covardes quanto eu imaginei.. Então que se foda, se preparem buxas, porque vou desafiar vossas leis tolas mais uma vez.❞ — Twilight Sylk, Piccadilly Circus, Londres. Filmada por 40 telemóveis.

❝Vermelho direcionado.. azul do lado oposto… Vermelho com Azul dá Roxo.❞ — Twilight Sylk, entrevista 0K-920-1-LOG-A. Última coisa que disse antes de desaparecer sem avisar.

❝Resultado inconclusivos, estaticamente improváveis numa constante de inconstância, pois… 1/64 Pessoas da Humanidade foram divididas em duas.. Um final digno para a Número Dois… Me lembrarei da vossa cara, então até logo… Vejamos, quem serão os próximos?❞ — Twilight Sylk, Incidente 005-A. Última vez avistada.


arquivo finalizado. status da entidade: inexplicável. localização: desconhecida. probabilidade de regresso: físicamente impossível.

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